Geopolítica, A2A, IA e dinheiro digital: assim está mudando o ecossistema de pagamentos

Em um mundo cada vez mais fragmentada, os pagamentos voltam ao centro do debate: sanções, soberania, pagamentos A2A (conta a conta), inteligência artificial e dinheiro digital. Falamos com Juan José Gutiérrez, diretor corporativo de Pagamentos em Cecabank, um banco atacadista que contribui infra-estrutura a bancos, gerentes, asseguradoras e fintech, com processamento de cartões, pagamentos digitais, acesso a redes de compensação e serviços internacionais de moeda, segurança e cumprimento regulador.
P: Como está afetando a geopolítica aos pagamentos internacionais?
R: Desde a invasão russa da Ucrânia se entende que os pagamentos podem ser uma arma. Restrições em redes como Visa e Mastercard ou em sistemas como SWIFT evidenciaram que a infra-estrutura financeira também joga na geopolítica.
O mundo se reordena por blocos, com mais controles e menos interoperabilidade. Enquanto, a Europa mantém um marco comum e homogeneizador dentro da zona SAIBA e impulsiona iniciativas como Bizum e a sua interoperabilidade europeia no projeto EuroPA. Desde o âmbito público destaca além disso o projeto do euro digital para ganhar soberania e resiliencia, no que Cecabank já integrou às suas entidades dentro de EuroPA e participou em distintos pilotos sobre euro digital e CBDC.
P: Os pagamentos A2A crescem, mas em comércio ainda custa. Que freia a sua adoção?
A grande barreira histórica do A2A era a falta de imediatismo: em comércio precisas de confirmação num instante para entregar um produto ou serviço. Por isso o avanço dos pagamentos imediatos é decisivo, porque se a transferência se valida em segundos, o pagamento com conta pode competir. O segundo desafio é a experiência de usuário: o cartão está plenamente assumida e é muito fácil de usar; o A2A deve ser igual de fluido, também em e-commerce com fórmulas tipo «pay by bank».
Para o comércio a competência entre pagamentos com cartão e pagamentos com conta será positiva. Na atualidade o pagamento com conta supõe um novo competidor para os cartões de débito mas pouco para as de crédito pela própria funcionalidade.
P: Onde está contribuindo mais valor a IA em pagamentos?
R: A IA leva anos presente em pagamentos, sobre todo em prevenção de fraude, embora agora se tenha popularizado com os modelos generativos. A sua função chave é analisar transações em tempo real, atribuir um score de risco e detectar operações suspeitas. Essa análise influi também na experiência do cliente. Com PSD2 aumentaram as exigências de autenticação, mas graças a modelos de risco e exceções é possível eximir muitas verificações sem elevar o fraude, reduzindo fricção no pagamento. A personalização e a automatização do back-office contribuem eficiência, mas hoje o maior valor está em segurança e fluência.
P: Como conviverá a FIAT com o dinheiro digital e que casos de uso vês mais perto?
R: A curto prazo haverá convivência: os carril FIAT —SEPA, cartões, SWIFT— continuarão porque são robustos. Mas alguns casos migrarão a soluções digitais. As stablecoins podem ganhar peso em pagamentos internacionais para operar 24/7 e ser rápida, sobre todo em B2B e remessas. Também contribuirão eficiência em tokenización e liquidação. As CBDC vão mais lentas, mas reforçariam soberania e resiliencia, como «um exército» disponível perante crise.